Laboratório de Tokyo Comprime Água em Forma Encontrada Só no Interior da Terra
Esqueça o gelo do seu congelador. Cientistas no Japão criaram uma forma de água tão exótica que não existe naturalmente em nenhum lugar da superfície terrestre. Ela só vive a centenas de quilômetros de profundidade, sob pressões tão imensas que esmagariam um submarino até virar um grão.
Pesquisadores da University of Tokyo confirmaram a existência de uma estrutura de água há muito teorizada, chamada Gelo-XIX. A equipe usou dispositivos chamados células de bigorna de diamante, que funcionam como a morsa mais poderosa do mundo, para comprimir uma minúscula amostra de água entre dois diamantes. Eles geraram pressões superiores a 30 gigapascals — isso é 300.000 vezes a pressão que experimentamos ao nível do mar. Isso simula as condições encontradas nas profundezas do manto terrestre, a camada rochosa entre a crosta e o núcleo. Sob esse estresse incrível, as moléculas de água se reorganizaram em uma rede cristalina densa e altamente ordenada, dando origem ao Gelo-XIX em laboratório pela primeira vez.
A conquista foi menos sobre fazer gelo novo e mais sobre resolver um mistério planetário prático. Geólogos sabem há muito tempo que mais água circula entre a superfície da Terra e seu interior do que se pensava, mas a mecânica de como a água é armazenada e movida nas profundezas era incerta. O Gelo-XIX fornece uma peça crítica desse quebra-cabeça. Sua estrutura densa e estável sugere que ele poderia atuar como um veículo principal para prender e transportar moléculas de água através do intenso calor e pressão do manto. Isso não é água como líquido ou vapor, mas água literalmente integrada ao tecido da própria rocha.
Um Reservatório Profundo da Terra com Impacto Global
Esta descoberta importa porque explica diretamente parte do ciclo profundo de água do planeta. Erupções vulcânicas liberam constantemente vapor de água do interior da Terra, enquanto processos tectônicos puxam água da superfície para o manto. O Gelo-XIX parece ser um ator-chave neste sistema de armazenamento subterrâneo, potencialmente contendo vastas quantidades de água que eventualmente retornam para reabastecer nossos oceanos ao longo de milhões de anos. É um programa de reciclagem em câmera lenta e escala planetária acontecendo bem debaixo dos nossos pés.
As implicações vão além do nosso próprio planeta. Entender como a água se comporta sob pressão extrema remodela como olhamos para outros mundos. Os interiores de luas grandes como a Europa de Júpiter ou a Ganimedes de Saturno, ou mesmo exoplanetas ricos em água, poderiam abrigar fases de gelo de alta pressão semelhantes. O trabalho da equipe de Tóquio fornece um novo modelo do que procurar ao modelar a geologia e a habitabilidade potencial desses corpos distantes. Se a Terra usa o Gelo-XIX como um reservatório profundo, outros mundos também podem usar.
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A criação do Gelo-XIX em um laboratório de Tóquio encerra um capítulo na física fundamental enquanto abre outro na ciência planetária. Isso nos lembra que alguns dos segredos mais profundos da Terra — e processos essenciais para manter o mundo da superfície que conhecemos — estão trancados no comportamento de uma simples molécula sob estresse inimaginável. A descoberta prova que mesmo algo tão familiar quanto a água ainda tem surpresas profundas guardadas, e que para entender os oceanos, devemos primeiro entender as profundezas esmagadoras abaixo.