Um enterro de dingo de 2.000 anos no sudeste da Austrália mostra sinais claros de que alguém colocou comida com o animal antes de cobri-lo com terra. A descoberta desafia suposições antigas sobre como os povos das Primeiras Nações viam os caninos selvagens.
Uma refeição deliberada para o dingo morto
Arqueólogos encontraram o esqueleto completo de um dingo em um local chamado Curracurrang, perto de Sydney, em Nova Gales do Sul. O animal foi enterrado de lado com as pernas encolhidas. Ao redor da cabeça e do pescoço, pesquisadores identificaram fragmentos de osso de pelo menos duas espécies de presas diferentes. Não eram restos aleatórios. A colocação sugere que alguém deixou comida intencionalmente para o dingo como parte do enterro.
O local foi escavado décadas atrás, mas só recentemente analisado com técnicas modernas. Pesquisadores da Universidade de Sydney e do Museu Australiano reexaminaram os restos. Eles usaram datação por radiocarbono para confirmar a idade e análise microscópica para identificar os restos de comida. Os ossos vieram de um wallaby e um gambá. Ambos são animais que dingos caçariam ou aproveitariam como carniça na natureza.
O que isso significa para entender as relações das Primeiras Nações com os animais
Para as comunidades aborígenes locais, a descoberta dá peso às tradições orais que descrevem dingos como companheiros, não pragas. O povo Dharawal, cujas terras tradicionais incluem a área de Curracurrang, há muito fala de dingos como ajudantes e protetores. Este enterro sugere que essas relações foram formalizadas em práticas rituais há milhares de anos.
O dingo não era um cão domesticado no sentido moderno. Permaneceu um animal selvagem. No entanto, alguém dedicou tempo para cavar uma cova, posicionar o corpo com cuidado e colocar comida ao lado. Esse nível de cuidado implica um vínculo que ia além da utilidade. O dingo pode ter sido um parceiro de trabalho, uma figura espiritual, ou ambos.
Um vislumbre raro de costumes funerários antigos
Enterros completos de dingos são incomuns no registro arqueológico. A maioria dos restos de dingo são espalhados ou fragmentados. Este é um dos exemplos mais antigos conhecidos de um sepultamento deliberado de dingo na Austrália. A presença de oferendas de comida o torna ainda mais raro. Práticas semelhantes foram vistas em outras partes do mundo com cães, mas este é um dos exemplos mais claros envolvendo um dingo.
Os pesquisadores notaram que o enterro corresponde a descrições em relatos coloniais antigos. Colonizadores europeus registraram povos aborígenes mantendo dingos como cães de acampamento e até amamentando filhotes órfãos. A nova evidência empurra essa relação para milênios atrás.
Esta única cova não pode contar toda a história de como os povos das Primeiras Nações viveram com dingos. Mas oferece um lembrete físico e silencioso de que o vínculo entre humanos e caninos na Austrália é muito mais antigo e complexo do que muitas histórias reconheceram.